Golden Globes: "12 Years A Slave", o favorito da categoria

O filme de Steve McQueen é o favorito para o prêmio de Melhor Filme Dramático e também em outras categorias

Em 2009, durante a entrega dos BAFTA, o diretor e escritor afro-britânico Steve McQueen ganhou o prêmio Carl Foreman como Promessa de Novo Talento por seu trabalho no filme "Hunger". Sua primeira obra-prima era uma visão que retratava bem de perto os conflitos nos começo dos anos 80, como a famosa grave de fome dos presos do ERI (Exército Republicano Irlandês) que exigiam ser tratados como presos políticos e não criminosos. A Academia Britânica não estava errada. Sem dúvida, McQueen é um cineasta original, completo e competente.  

"12 Years a Slave" é apenas o seu terceiro longa e como nos anteriores alcançou as principais premiações, mantendo um estilo próprio e uma excelente qualidade. Eleito pelo público como favorito na sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Toronto, talvez seja o grande vencedor do Globo de Ouro ou até mesmo da Temporada de Prêmios. 

O argumento
Salomon Northup era um homem livre de raça negra, morador do estado de Nova York na União Americana do século XIX, dividida entre Sul e Norte, escravocratas e liberais. Casado e pai de dois filhos, esse violonista é enganado, drogado, sequestrado e vendido num leilão para os senhores de campos de trabalho na Geórgia.  Passando de mão em mão, ele viveu 12 anos como escravo, forçado a trabalhar, privado da sua liberdade e impossibilitado sequer de rever seu caso, alertar para o seu problema ou alçar a voz. "12 Years a Slave" é um caso verídico. É um pedaço vergonhoso da história da humanidade, um relato cruel, indigno e eterno.  

Contra quem compete?
"Captain Phillips"
"Gravity"
"Philomena"
"Rush" 

Pontos a Favor
Pelo tema, o filme até poderia ser mais um desses de denúncia ou martírio. Entretanto, pelo tratamento e a abordagem não é bem assim. Como em seus filmes anteriores, McQueen recorre e analisa meticulosamente o comportamento humano e os instintos animais, selvagens, cruéis e vis que alguém possa vir a ter. É um transgressor dos limites e isto fica explicito em suas cenas e enfoques. Não é tão radical quanto Gaspar Noé em "Irreversível", mas possui uma violência gráfica que considero até mesmo necessária, já que para explorar esses mundos baixos e pestilentos da humanidade é preciso submergir e se envolver na imundice absoluta. Mas fazer isto com classe e inteligência só mesmo com a genialidade de McQueen. 
Vamos então falar sobre as atuações. O britânico Chiwetel Ejiofor, o germano-irlandês Michael Fassbender e a queniana de origem mexicana Lupita Nyongi'o fazem os papéis principais com atuações paralisantes. Esses atores são capazes de nos levar ao limite das emoções. O espectador se torna uma presa fácil e é tomado pela indignação, medo, raiva contida, dor e compaixão, sem a necessidade de recursos baratos. 
É um filme inspirador, heróico, que mostra como sobrepor à tragédia. Não mostra uma vítima oprimida chorona. É uma história que flui, uma tragédia que vai aumentando, mas sem o afã de instruir ou de se tornar uma vingança histórica social. É um relato digno que deve ser contado. "12 Years a Slave" é um filme para ficar na eternidade, desses que deixam um vazio no coração, que te incitam a refletir e pensar, que tocam as fibras e te arrancam lágrimas. É uma história triste e pesada, que entra na alma e é capaz de te deixar uma tarde inteira num estado de anestesia.  
Mas, acima de tudo, além de apresentar uma excelente história, tratamento, atuações e direção, o filme possui magníficas qualidades técnicas. O desenho de arte é simplesmente brilhante. A beleza da fotografia, com claros e escuros e movimentos tênues contemplativos, contrapõem com a violência e a repugnância das cenas. 
Como já dissemos anteriormente, é preciso ressaltar a presença da música. O super requisitado musicista alemão, Hans Zimmer, consegue criar uma partitura simples, mas com uma presença marcante. Já nos primeiros acordes da melodia chamada "Salomon" é possível sentir um frio na espinha e a garganta seca. Uma trilha que tem grandes chances de brilhar no Oscar.   

Pontos Contra
Talvez muita gente sinta uma grande confusão no tratamento do longa e possa vê-lo como uma mera história de vingança histórica social. Como toda arte, a apreciação e percepção são individuais e têm suas variantes. O que para alguns é sublime para outros pode chegar a ser grotesco. E talvez este seja um ponto contra: a violência gráfica. Mesmo assim, eu acredito que ela é necessária e faz parte do estilo de McQueen, um diretor capaz de te deixar com um frio no estômago com seus diálogos fortes e cenas explícitas. Para alguns, isto seria até mesmo desnecessário, de mau gosto ou exagerado, mas para os demais  em "12 Years a Slave" esta é uma conduta irrepreensível. 

Quais são as chances?
Muitas.  De fato é o grande favorito da categoria. O elo mais forte da corrente. As qualidades cinematográficas, somado ao efeito devastador que ecoa na alma, tornam a obra eterna, servindo de referência e como um pedaço importante para a história do cinema. Ganhou em Toronto e é o favorito ao Globo de Ouro e brilhará no Oscar. Sem dúvida, é nossa grande aposta. Seu concorrente é "Gravity", mas ele tem menos chances. 

Quais são as outras indicações ao Globo de Ouro?
Melhor Ator em Drama para o londrino Chiwetel Ejiofor. Concorre nesta categoria com Tom Hanks ("Captain Phillips"), Idris Elba ("Mandela: Long Walk to Freedom"), Robert Redford ("All is Lost") e Matthew McCounaghey ("Dallas Buyers Club").   Tanto McCounaghey como Ejiofor são os favoritos ao prêmio. Chiwetel oferece  uma interpretação comovente e dolorida. Para nós ele seria o grande vencedor do Globo de Ouro.
Melhor Ator Coadjuvante para Michael Fassbender.  Concorre com Bradley Cooper ("American Hustle"), Daniel Brühl ("Rush"), Barkhad Abdi ("Captain Phillips") e Jared Leto ("Dallas Buyers Club") – seu maior rival. Honestamente, acho que a atuação de Fassbender é muito mais completa e poderosa e, com recursos bem mais limitados, terminou fazendo um papel que provoca no espectador o terror e o rechaço. Uma interpretação gloriosa que pode conquistar os votantes, apesar da transformação física de Leto ser bastante convincente.
Melhor Atriz Coadjuvante para Lupita Nyong'o. Concorre na mesma categoria com Sally Hawkins ("Blue Jasmine"), Jennifer Lawrence ("American Hustle"), June Squibb ("Nebraska") e Julia Roberts ("August: Osage County"). Acho que ela pode ser a grande vencedora do Globo de Ouro com seu primeiro papel no cinema. Logo atrás estaria Lawrence, que faz uma atuação marcante em "American Hustle". Entretanto, pelo tipo de papel e a capacidade de transmitir emoções, Lupita tem uma grande vantagem em relação às outras candidatas. 
Melhor Direção para Steve McQueen. Concorre com David O. Russell ("American Hustle"), Paul Greengrass ("Captain Phillips"), Alexander Payne ("Nebraska") e o mexicano Alfonso Cuarón ("Gravity"). O grande favorito é o diretor de "Gravity" por seu trabalho coletivo no filme e que merece ser conferido. Mas, sem dúvida, o grande rival de Cuadrón é Steve McQueen. Ele até poderia vencer nesta categoria, mas Cuadrón é a aposta da vez.
Melhor Roteiro para John Ridley, que concorre na categoria com David O. Russell ("American Hustle"), Spike Jonze ("Her"), Bob Nelson ("Nebraska"), Steve Coogan e Jeff Pope ("Philomena"). Ridley tem grandes chances de levar o prêmio. Conseguiu fazer uma excelente adaptação de uma história emocionante da autobiografia de Solomon Northup. No entanto, o fato de ser um roteiro adaptado, nossas apostas seriam em David O. Russell e sua escrita impecável, criativa e intrigante em "American Hustle".
Melhor Trilha Sonora para Hans Zimmer que concorre nesta categoria com Steven Price ("Gravity"), Alex Ebert ("All is Lost"), Alex Heffes ("Mandela: Long Walk to Freedom") e  John Williams ("The Book Thief"). Como já disse anteriormente, o trabalho de Zimmer é brilhante que amplifica as emoções. Uma partitura simples construída a partir de uma base com uma progressão de notas com três variações, onde podemos apreciar os sons de violinos, violoncelos e flauta transversal. É um forte candidato. Mesmo assim, nossas apostas são para Steven Price em "Gravity". O som quase surdo contrapõe a atmosfera fria, tenebrosa, misteriosa e infinita, digno de um prêmio dessa categoria. 

Já sabem! No domingo, dia 12 de janeiro, o TNT transmitirá ao vivo e do Beverly Hilton a septuagésima primeira entrega do Globo de Ouro. Está de acordo com as nossas previsões? 
por Rafa Sarmiento