Golden Globes: "Captain Phillips", angústia e heroísmo

No tnt vamos continuar repassando os filmes indicados ao Globo de Ouro. Agora é a vez de "Capitão Phillips", estrelado por Tom Hanks.

Talvez a primeira referência que eu tive de Paul Greengrass foi daquela obra que documentava não apenas o show, mas também a ajuda humanitária do antológico concerto de 1985 organizado por Bob Geldof, o Live Aid - um encontro de artistas feito para refletir e alertar a crise humanitária vivida na Etiópia e em outras regiões do continente africano. Acho que o documentário se chamava "Food Trucks and Rock and Roll" e fez parte depois da recopilação vendida a partir de 2005, na comemoração dos 20 anos do Live Aid.

O fato demonstra que o diretor iniciou sua carreira como documentarista e que isto, sem dúvida, influenciou sua maneira de fazer cinema. Naquele episódio da saga "Bourne" e em "United 93", ele jogava com a câmera dando a sensação do que o espectador está dentro da cena, vivenciando o momento junto com os atores. Esse realismo é uma característica dos documentários, recurso usado pelo diretor para aproximar o espectador da cena. 

Estreada no Festival de Cinema de Toronto, "Capitão Phillips" é um retrato vertiginoso do primeiro sequestro de um barco estadunidense em mais de 200 anos. Trata-se do cargueiro Maersk Alabama, que em 2009 foi interceptado por piratas enquanto navegava em águas internacionais próximo à costa da Somália. O filme mostra não apenas a angústia, mas a forma como a sensatez e a perspicácia atuam frente ao medo e a loucura. Não é apenas uma história de ação e tensão ou mais um entre tantos filmes da temporada, esta produção contém diversos subtextos e perspectivas, a partir do simples fato da privação da liberdade e do temor. 

O espectador é testemunha e cúmplice das situações vivenciadas pela tripulação. A trama está tão bem manipulada que a Síndrome de Estocolmo é transmitida para a audiência, que cambaleia entre a compreensão e a compaixão, contrapondo-se à ira, ao medo e a indignação. O filme poderia estar dividido em duas partes: uma com um desenvolvimento forte e de grande tensão – e talvez a mais valiosa – e outra que mostra um heroísmo norte-americano com objetivo último de atrair uma boa bilheteria. Sim, para muitos o final pode ser pouco crível e bem "hollywoodiano" para uma história um mote como esse. 

Contra quem compete? 
"12 Years a Slave"
"Philomena"
"Gravity"
"Rush"

Pontos a favor
Temos uma grande história baseada num fato real, que coloca o espírito humano e as forças americanas num plano triunfalista e inspirador; aspectos que os membros da Academia adoram. 
Temos também um roteiro bem estruturado, sem altos e baixos, e com uma direção que sabe jogar com o espectador. O filme possui um ritmo alucinante, sem dar ao público tempo para descansar ou respirar. 
Além disso, a produção conta com um dos atores mais queridos de Hollywood: Tom Hanks. Com uma interpretação sólida e convincente, Hanks oferece diferentes registros que vão do medo, da perda da esperança, da lucidez, da frieza até o aturdimento e a confusão. Sua grande presença cênica capta a atenção do espectador, centrando-o em cada frase e decisão que o Capitão Phillips diz e recebe. 
Seu antagonista, o somali Barkhad Abdi, interpreta uma personagem profundamente confusa, causando ao mesmo tempo empatia e ódio; reações inesperadas para um ator estreante e completamente inexperiente no mundo da atuação. 
A direção é magistral. Tinha de entrada uma série de complicações, como o fato da história ocorrer num barco no meio do oceano. Mesmo assim, foi bem realizada no set e locação. Como dissemos anteriormente, é muito interessante a forma coma a câmera é manipulada, fazendo dela uma testemunha a mais da trama. Criatividade e originalidade são as marcas da direção.

Pontos contra
Talvez o tom heróico e patriota ao final enfraqueça todo essa atmosfera de mistério, tensão e terror. O filme começa com um tom de "Dog Day Afternoon" e termina sendo mais um capítulo da saga de Jason Bourne. 
A personagem de Hanks não é grandiosa. Não me refiro às qualidades ou a sua capacidade interpretativa, pois seu talento é indiscutível. Mas podemos dizer que este não é um papel que poderia ficar eternizado como Forrest Gump, ou até mesmo como um Alexander de Large, Michael Corleone e R.P McMurphy. 
A debilidade mais evidente é que eria uma história passageira. Uma experiência cinematográfica para ser apreciada num momento e descartada na saída do cinema. 

Quais são as chances?
Poucas. "Capitão Phillips" não é um forte candidato, mesmo assim tem quatro indicações ao Globo de Ouro, incluindo Melhor Filme. O efeito diluído faz dele um concorrente respeitável, mas sem grandes chances. Seria uma grande surpresa se sair vitorioso.

Quais são as outras indicações ao Globo de Ouro?
Tom Hanks concorre na categoria Melhor Ator Dramático, junto com Chiwetel Ejiofor (12 Years a Slave), Idris Elba (Mandela: Long Walk to Freedom), Robert Redford (All is Lost) e Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club). É difícil que ele ganhe. Talvez o prêmio esteja entre Ejiofor e McConaughey, os mais fortes nesta categoria.
Barkhad Abdi já poderia ser considerado um vencedor. O somali imigrou para o Iêmen depois da guerra civil e passou a adolescência nos Estados Unidos, onde trabalhava como motorista. Agora, tem uma indicação ao Globo de Ouro e uma ao SAG. Apesar de nunca ter pensado em ser ator, hoje sonha em conquistar o prêmio de melhor ator coadjuvante com seu primeiro papel. Ele concorre junto com atores como Daniel Brühl (Rush), Bradley Cooper (American Hustle), Jared Leto (Dallas Buyers Club) e Michael Fassbender (12 Years a Slave) - os dois últimos são os preferidos. A chance de Abdi levar a estatueta para casa é praticamente zero. 
Paul Greengrass também está indicado como Melhor Direção. O ritmo irreprochável, a tensão criada e maneira como ele expôs o conflito valem a indicação a esta importante categoria, em que concorre ao lado de Steve McQueen (12 Years a Slave), Alexander Payne (Nebraska), David O. Russell (American Hustle) e o mexicano Alfonso Cuarón (Gravity), que desponta como o favorito a levar o Globo de Ouro, seguido por McQueen. As chances de Greengrass são poucas.

Vale a pena lembrar que o Globo de Ouro será transmitido pelo TNT, com exclusividade, para toda a América Latina no dia 12 de janeiro. Enquanto isso, continuamos analisando no TNT os concorrentes e as possibilidades de cada um deles. 
por Rafa Sarmiento