Golden Globes: "Her", a visão futurista de um amor por uma inteligência artificial

O filme de Spike Jonze está indicado na categoria "Melhor Filme – Comédia ou Musical"

Rumo à septuagésima primeira edição anual do Globo de Ouro, continuamos analisando no tnt.com a categoria de "Melhor Filme – Comédia ou Musical". Desta vez, vamos falar sobre um filme escrito e dirigido por Spike Jonze: "Her". 

Pra começar acho estranho o parâmetro usado pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood na divisão das categorias. "Her", por exemplo, possui uma atmosfera nostálgica inegável e presente em praticamente todo o filme, com fatos que apontam muito mais para a tristeza.  

A produção possui fortes qualidades dramáticas, já que o roteiro tem uma série de picos emocionais que podem nos levar ao riso. Dessa forma, poderíamos então afirmar que "The Prince of Tides", que era um dramalhão, entraria também nesse segmento, pois revela o humor através das revelações dolorosas. Enfim. "Her" está indicada na categoria comédia e assim ficará.

Los Angeles, Califórnia. Futuro. Theodore é um homem solitário, escritor de cartas e está em pleno processo de separação de uma bela mulher que ainda ama e não consegue esquecer. Sempre acompanhado por modernos e complexos sistemas de computação, ele decide adquirir um novo sistema operativo que obedeça às suas novas necessidades. A química e o vínculo com "Samantha" – seu novo sistema operativo- é tão grande e forte que Theo termina se apaixonando por ela. 

As implicações, complicações e consequências desse "amor virtual" são o principal conflito do filme, mas que de maneira alguma critica ou aponta a nossa dependência, necessidade ou obsessão pelo universo tecnológico; mesmo analisando o nosso comportamento e criando uma divertida teoria de como seria o futuro e as nossas relações interpessoais a partir desses elementos criados para nos aproximarem, mas que nos distanciam cada vez mais.   

Contra quem compete?
"American Huslte"
"Inside Llewyn Davis"
"Nebraska"
"The Wolf of Wall Street" 

Pontos a favor
É inevitável não tentar entender a origem de Spike Jonze em termos cinematográficos e como as coisas influenciaram a sua carreira. A relação com a música é um aspecto presente em sua obra.  Ele foi um vídeo-artista reconhecido e fez obras memoráveis com grandes bandas e artistas. 
A trilha sonora que acompanha o tempo todo a nostálgica e frágil vida de Theodore é espetacular. Bandas como The Breeders, Arcade Fire, Nickodemus e Karen O (vocalista dos nova-iorquinos Yeah Yeah Yeahs) marcam o estado de ânimo do protagonista, influenciando o expectador. Os hipsters estariam felizes e gratos com esse soundtrack que, honestamente, é maravilhoso.
Temos também uma grande história, pelo menos no tratamento. Digo isto porque é um tanto previsível; mas falamos sobre isto depois. 
Visualmente está repleta de detalhes e é inovador, fresco e até bizarro. A teoria de uma Los Angeles futurista, organizada, próspera, limpa e automatizado, com todas as suas implicações estéticas, é um ponto que deve ser ressaltado. Também merecem destaque os incríveis desenhos interiores, urbanos e os detalhes das projeções, mobiliário e demais aspectos relacionados ao desenho de arte. Vamos ver se todo esse cuidado será bem recebido pelo Oscar. A briga do quinteto de indicados é boa, mas não me surpreenderia se "Her" levasse o prêmio dessa categoria para casa. 
Tudo isto se contrapõe ao estilo meio vintage do figurino e da maquiagem moderno-futurista. Sem dúvida, todo esse visual é um dos pontos altos do filme.  
Grande também é o exercício histriônico de Joaquin Phoenix. Complexo e fresco, ele praticamente tem um monólogo na maioria das sequências.  
Existe uma continuidade dramática que se mantém em quase todo o filme, com alguns poucos altos e baixos. Alguns diálogos são divertidos e até mesmo picantes, mas sempre causando um efeito risório. É um filme divertido.
Não podemos deixar de destacar a voz hipnotizante de Scarlett Johansonn. 

Pontos contra
Como já dissemos anteriormente, temos um roteiro original e criativo, pelo menos no tratamento. É muito interessante a teoria da "evolução" das relações humanas, em que estas são na verdade um terrível retrocesso. O choque de ideias é genial. O problema está nas situações separadas e, sobretudo, nas consequências e conclusões; que são completamente previsíveis. 
Quando um filme como este, que tem uma hora e vinte minutos, fica evidente o que irá suceder. E talvez o espectador possa perder um pouco do interesse e da concentração. Talvez se tivesse durado um pouco menos causaria um efeito mais positivo nesse aspecto. Não desmerecendo o final intenso e comovente, mas o fato é que o filme tem essa curva negativa, coisa que "American Hustle" não tem.

Quais são as chances?
Limitadas. "Her" não é o favorito da categoria. Isto não quer dizer não tenha qualidades. Se o comprássemos a um time de futebol, poderíamos dizer que ele tem uma grande equipe. Entretanto, se analisássemos cada um dos seus aspectos perceberíamos que ele pode ser derrotado no saldo de gols.  "Her" é um grande filme, mas não será o vencedor.

Quais são as outras indicações ao Globo de Ouro?
"Melhor Ator em Comédia e/ou Musical" para Joaquin Phoenix. Concorre com os atores principais dos demais filmes indicados: Leonardo DiCaprio (The Wolf of Wallstreet), Christian Bale (American Hustle), Oscar Isaac (Inside Llewyn Davis) e Bruce Dern (Nebraska).
Faz um bom papel, passando da nostalgia aos estados de euforia e plenitude. Passa boa parte do filme sozinho em cena. Não tem com quem contracenar, mas com certeza teve ajuda durante as filmagens com os diálogos de "Samantha". Mesmo assim, não teve aquela cumplicidade que ajuda o ator a reagir e a colorir a cena com um leque de emoções. 
Phoenix praticamente faz um monólogo a maior parte do tempo, e faz bem feito. Soube mostrar os estados de confusão e contrariedade exigidos pela trama. Com certeza, foi uma indicação mais do que merecida. 
Acreditamos que ele não será o vencedor.  O grande favorito nesta categoria é Christian Bale que faz um trabalho magnífico em "American Hustle". Entretanto, mesmo tendo falado anteriormente que Bruce Dern ("Nebraska") não levaria a estatueta, ele é a nossa maior aposta. Pode parecer loucura, mas nossas fichas são para ele.
A terceira e última indicação para "Her" é na categoria "Melhor Roteiro". Spike Jonze concorre com Bob Nelson (Nebraska), Pope e Coogan (Philomena), John Ridley (12 Years a Slave) e Warren e Russell (American Hustle). A originalidade da teoria e o tratamento dado por Spike Jonze ao tema mereceram destaque nas indicações. Mesmo assim, os grandes favoritos seriam "12 Years a Slave" e "American Hustle", sendo o último a nossa grande aposta por sua escrita brilhante, imprevisível, intensa e criativa; que além do mais é um roteiro original e não uma adaptação como é "12 Years a Slave". E talvez por este motivo possa ser o vencedor. 

Faltam poucos dias para passar uma noite divertida junto com Tina Fey e Amy Pholer, apresentadores da septuagésima primeira edição do Globo de Ouro, cerimônia que o TNT transmitirá com exclusividade para toda a América Latina. Quais são suas apostas e teorias?
por Rafa Sarmiento