Golden Globes: "Nebraska", o cotidiano fora do cotidiano

O filme de Alexander Payne obedece ao seu estilo constante. Quais são as chances?

Terminamos de analisar a categoria de Melhor Filme Dramático e escolhemos "12 Years a Slave" como o favorito. Vamos dar início então às análises do quinteto indicado na categoria Melhor Comédia e/ou Musical. Hoje, no tnt.com, vamos falar de "Nebraska", filme de Alexander Payne. 

Woody Grant é um homem de terceira idade, aposentado, e morador de Montana. Sua vida pacífica, monótona e medíocre dá uma volta inesperada depois dele receber pelo correio um prêmio de um milhão de dólares como parte de uma revista sediada em Nebraska, onde fará uma viagem absurda na companhia do filho para reclamar o prêmio.  

O caminho é complexo e uma série de acontecimentos familiares, que os leva a fazerem uma retrospectiva de suas vidas, educação, infância e vícios, muda para sempre a forma como eles verão sua própria existência. E uma mentira fará com que todos sejam cúmplices, trazendo grandes consequências. "Nebraska" é uma road movie e um retrato cotidiano de gente comum e ao mesmo tempo especial. 

Contra quem compete?
"American Hustle"
"Her"
"Inside Llevyn Davis"
"The Wolf of Wallstreet" 

A anedota
Há uma década, quando Paul Giamatti ofereceu em Nova York uma coletiva de imprensa para falar com os meios sobre sua participação em "Sideways", um jornalista francês lhe perguntou sobre como era a mecânica do comportamento de um "perdedor", assim como "Miles" – nome da sua persongem. Antes mesmo de ele terminar a pergunta, Giamatti riu interrompendo-o: "E porque você diz que Miles é um perdedor? Quem te disse que ele é um perdedor? Só porque é um homem comum, como tantos que há por aí? Acho que você não entendeu bem o filme ou não percebeu que Alexander Payne trata exatamente desse tipo de pessoa". 

Pontos a favor
Temos em "Nebraska" uma comédia inteligente construída a partir de situações graciosas e personagens aparentemente planos, mas extremamente complexos; como a vida. É assim o trabalho de Alexander Payne e é o que acostumamos ver nos seus últimos filmes. 
Desde "Sideways", "About Schmidt" e "The Descendants", o diretor de Nebraska é um constante estudioso das condições humanas, colocando personagens que poderiam ser seu vizinho, seu tio ou um colega. E talvez seja por isto que seu trabalho desperte tanto interesse. São situações cotidianas, fáceis de causar empatia. 
Ele retrata de perto, de maneira íntima, entra bem dentro da vida do cidadão médio estadunidense, mostrando sua maneira pensar, seus vícios e costumes. Não aposta em tramas complicadas ou num esbanjamento de recursos técnicos. Oferece histórias humanas. Nem mais nem menos.
Mas ironicamente, esta história não foi escrita por ele. O roteiro original é de Bob Nelson que Payne apenas dirigiu. Uma história que é pouco previsível, que te envolve e te engana, e te leva a participar e, de certa forma, te obriga a tomar partido. O engraçado é que ela vai te dando solavancos e te levando a experimentar o que cada um deles é capaz de sentir. O público é um juiz externo, submerso na complexa mecânica interna da família. Acho que a missão do filme se cumpre quando o espectador termina acreditando e sendo cúmplice da mesma mentira, da qual nasce todo o conflito. 
Numa trama como esta, o exercício do ator se torna um grande desafio, pois não tem muito de onde agarrar. Tem que ser o mais natural possível e ser natural é às vezes mais complicado que ser aparatosamente dramático. Às vezes, os diálogos são adagas afiadas ou necessidades etílicas. As situações incomodam e podem nos levar a sentir desde vergonha até ternura e compaixão. 
Existe também uma comédia involuntária, em que numa tragédia familiar ou num fato forte, as gargalhadas envergonhadas são inevitáveis. Este é o modelo que se repete no trabalho de Payne. Existe um halo deprimente e cinzento ao longo de toda a trama e no de Ohama decidiu fazer o filme em preto e branco, imprimindo um dramatismo muito maior, deixo-o muito mais denso.  

Pontos contra
Apesar de conter essas situações que causam incômodo e divertimento e ser uma história imprevisível que capta a nossa atenção, é um tanto densa, espessa e com momentos bastante lentos. Algumas passagens são longas – mesmo que estejam justificadas e envolvam o público nesse cotidiano que te obriga a viver a vida dos protagonistas – às vezes a concentração diminui e surge uma ansiedade em tirar conclusões. 
O absurdo que surge na trama a torna uma pouco desesperadora e a gente fica esperando que o coquetel molotov aconteça. Mas só podemos ver como a estopa se consome com o combustível, sem que a esperada reação aconteça. 
Os maiores pontos contra de "Nebraska" são "American Hustle" e "The Wolf of Wallstreet", dois produtos que podem esmagar o modesto cotidiano do genial filme de Payne.  

Quais são as chances?
Poucas. "Nebraska" flutua num quinteto bastante complicado e com pessoas experientes e de grande reputação. Ironicamente, os nomes mais fortes e conhecidos vêm da comédia e/ou musical e não do drama. 
Scorsese, Russell, Jonze e os irmãos Coen, nem mais nem menos. Não é que Alexander Payne não tenha uma reputação considerável. É claro que ele tem. No entanto, seu produto foi superado em alguns aspectos pelos demais filmes da categoria. Em breve revelaremos qual do quinteto é a nossa aposta. 

Quais são as outras indicações ao Globo de Ouro?
Foram quatro indicações no total para essa história escrita por Bob Nelson e dirigida por Payne. E fico me perguntando o que teria acontecido se o diretor tivesse colocado as mãos no roteiro, mas jamais saberemos a resposta.  
O protagonista Bruce Dern está indicado como Melhor Ator de Comédia e/ou Musical. Concorre com os atores principais dos filmes que também estão na competição por Melhor Filme de Comédia. São eles: Leonardo DiCaprio (The Wolf of Wallstreet), Oscar Isaac (Inside Llewyn Davis), Christian Bale (American Hustle) e Joaquim Phoenix (Her).
Dern é um homem da terceira idade cheio de manias, obstinado, egoísta e ingênuo, que no final da vida tem que lidar com o tédio e a depressão. É capaz de arrancar gargalhadas ou provocar pena e compaixão.  Uma interpretação que acompanha os altos e baixos da trama. Excelente papel. Entretanto, não é o favorito. 
Melhor Atriz Coadjuvante para June Squibb. Concorre com Jennifer Lawrence (American Hustle), Lupita Nyong´o (12 Years a Slave), Julia Roberts (August: Osage County) e Sally Hawkins (Blue Jasmine).  De entrada já temos aqui uma complicação dupla porque a categoria abrange ambos os gêneros: drama e comédia. No entanto Squibb está muito bem no papel. 
Parece que ela tem brasas na língua. É mal-intencionada, cruel e tremendamente irônica. Aparece casualmente nas situações mais difíceis, sempre para colocar um pouco de veneno. Alguns deles são até compreensíveis, e a divertida mecânica do casal e a relação mãe- e filho merecem destaque. São muito engraçadas. A maioria não se atreve, mas as algumas vezes dá vontade de enforcá-la (no bom sentido!). É um grande papel, mas que tem poucas chances diante de Lupita Nyong´o de "12 Years a Slave", que faz uma atuação capaz de te deixar em frangalhos.  
Alexander Payne concorre como Melhor Diretor junto com Paul Greengrass (Captain Phillips), David O. Russell (American Hustle), Steve McQueen (12 Years a Slave) e Alfonso Cuarón (Gravity). Mas como já dissemos anteriormente, o favorito é mesmo o mexicano, que também é a nossa aposta nesta categoria. 
Finalmente, Bob Nelson está indicado na categoria Melhor Roteiro junto com David O Russell e Eric Singer (American Hustle), Spike Jonze (Her), John Ridley (12 Years a Slave), Steve Coogan e Jeff Pope (Philomena). Sua história apresenta uma teoria interessante de como uma mentira vai se propagando e causando reações numa comunidade. A superficialidade e a maneira como as pessoas se deixam convencer, as incondicionalidades do amor familiar, entre outros aspectos, tornam o filme muito interessante. Mesmo assim, as chances são poucas. "American Huslte" se destaca como favorito por seu roteiro brilhante e uma criativa trama criminosa. 

Lembrando que neste domingo, dia 12 de janeiro, o TNT transmitirá, com exclusividade, a septuagésima primeira entrega do Globo de Ouro. Enquanto o grande dia não chega, leia com atenção os artigos sobre as indicações ao prêmio.
por Rafa Sarmiento