Golden Globes: "Rush", drama, velocidade e excessos

A poucos dias da cerimônia de domingo, vamos analisar as chances do filme de Ron Howard levar o prêmio para casa.

Faltando poucos dias para septuagésima primeira entrega anual do Globo de Ouro, considerada pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood como a melhor premiação do cinema e da TV, continuamos as análises da principal categoria, a de Melhor Filme, dividida em dois gêneros: Drama e Comédia e/ou Musical. Hoje é a vez da mais recente obra do diretor Ron Howard: "Rush", um filme estreado em Londres em setembro e exibido 6 dias depois no Festival Internacional de Cinema de Toronto, uma das janelas mais importantes para a Temporada de prêmios. 

Baseado em fatos reais, o filme retrata a rivalidade na Formula 1 na década de setenta entre os célebres e icônicos pilotos Niki Lauda e James Hunt. A incompatibilidade de gênios era marcada também pelas distintas nacionalidades. Como bom austríaco, Lauda era organizado, disciplinado, sério e com grande sentido de justiça. Já Hunt era festeiro, desprendido e até mesmo irresponsável. 

Devido ao formato de sua cabeça e seus dentes salientes, Lauda era chamado de "rato". Já Hunt era loiro de olhos azuis, cabelo longo e charmoso. Lauda era tranquilo e concentrado. Hunt gostava de festas, mulheres, bebidas e circular pelo Jet set; se comportava como um astro do rock, só que seu instrumento era o carro de corrida. Extravagante ou discreto, o que era inegável era o talento de ambos na pista. Dois mundos, dois carros, uma pista em um único campeonato. 

Dos circuitos anteriores a categoria mais importante do automobilismo, passando pelo terrível acidente de Lauda – que ganhou queimaduras e cicatrizes eternas - até o mítico e perigoso Gran Prix do Japão de 76, "Rush" retrata paralelamente a rivalidade nas pistas e fora delas. 

Contra quem concorre?
"12 Years a Slave"
"Captain Phillips"
"Gravity"
"Philomena"

Pontos a Favor
Ron Howard sabe contar grandes historias, seja produzindo ou dirigindo filmes inesquecíveis. É membro da Academia e conhece bem o universo hollywoodiano, com seus vícios e clichês. Mais além das artimanhas para ganhar a simpatia dos votantes, ele oferece uma história de qualidade, que se debate entre a ação e a adrenalina e a relação humana que fortalece e enfraquece as personagens, numa mecânica interna interessante da qual o espectador participa e é testemunha. 
A trama está bem desenvolvida. O que a priori poderíamos julgar das ações dos protagonistas e suas personalidades, numa história que todos sabemos como termina, o filme nos surpreende dando voltas inesperadas. E isto é, sem dúvida, uma grande qualidade. Ele consegue manter o mistério, criar tensão e expectativa mesmo o espectador conhecendo o desenlace. O diretor soube contar bem a história e agregar ingredientes que a deixaram ainda mais interessante.
Visualmente, "Rush" é uma proeza. Foram usadas diversos tipos de câmeras para mostrar de perto as corridas de Fórmula 1. Há sempre uma sensação constante de vertigem e uma visão multiangular. Excelente trabalho de Anthony Dod Mantle, o fotógrafo londrino que ganhou o Oscar por "Slumdog Millionaire".
É preciso destacar o trabalho do ator alemão Daniel Brühl, sempre lembrado por suas interpretações em "Adeus Lênin" e "Os Educadores", dois ótimos filmes alemães. Brühl faz um excelente trabalho na pele do antipático e ao mesmo tempo cativante Niki Lauda. Seu sotaque inglês, a forma de falar e caminhar dá calafrios de tão parecido que é. Num ato de curiosidade, busquei entrevistas com Lauda, e percebi que o ator fez uma extensa pesquisa para compor o papel. Algo que é preciso destacar, já que certos filmes não valorizam o trabalho do ator. Mas este já é assunto para outro tema. 

Pontos Contra
Apesar de a história mostrar duas visões diferentes, aspectos que fazem parte do esporte e das relações humanas, a balança inclina mais para o lado da ação. E sabemos que nesta temporada o drama está em alta, algo que neste filme faz falta. 
É inútil buscar defeitos numa produção que tem de tudo: excelente trilha, desenho de arte impecável e ótimas atuações, direção, roteiro e etc. "Rush" é um filme perfeito e talvez sua maior debilidade fosse mesmo seus concorrentes. 

Quais são as chances?
Honestamente, poucas. Numa classificação de 1 a 5 (em que 1 seria o favorito e 5 o mais fraco), "Rush" estaria entre 3 e 4. Mesmo visualmente bem realizada, o filme perde neste quesito para "Gravity". Em relação ao tema baseado na competição e no choque entre dois mundos diferentes, o sentimentalismo proposto por "Philomena" é esmagador. Se pretendiam mistério, tensão e angústia, "Gravity" é muito mais atemorizante. Se "Rush" dá vertigem, "Gravity" ultrapassa qualquer limite. E se comparassem as atuações com as interpretações do elenco de "12 Years a Slave" o filme também sairia perdendo, além de que a história do segundo é bem mais sólida e cativante. 
"Rush" de Ron Howard é um filme excelente cheio de qualidades, mas não é o favorito. 

Quais são as outras indicações ao Globo de Ouro?
O hispano-alemão Daniel Brühl concorre merecidamente como Melhor Ator Coadjuvante. Sua atuação é convincente e dá para perceber que fez uma excelente pesquisa na caracterização da personagem. Ele concorre na mesma categoria que Barkhad Abdi (Captain Phillips), Bradley Cooper (American Hustle), Michael Fassbender (12 Years A Slave) e Jared Leto (Dallas Buyers Club). 
É pouco provável que ele seja o vencedor da noite de domingo do dia 12 de janeiro na cerimônia transmitida ao vivo pelo TNT para toda a América Latina, a 71ª Entrega do Globo de Ouro.
por Rafa Sarmiento