Oscar®: "Her", o amor por uma máquina

É uma bela história com uma grande atuação de Joaquin Phoenix

Talvez, para entender um pouco a maneira como Spike Jonze costuma fazer cinema deveríamos traçar a relação dele com a música. Registrado com o nome de Adam Spiegel, ele vem atuando como diretor e criador de diversos vídeos para artistas como R.E.M, Björk, Chemical Brothers, Tenacious D e os Beastie Boys. Com este trio, ele fez o maravilhoso "Sabotage", uma homenagem ao cinema policial de baixo custo da década de 70, num momento que nem sequer havia essa nostalgia e esse estilo meio "mal feito" e despretensioso.

Além disso, ele também trabalhou como documentarista e fez curtas e filmes com uma estética e atmosfera de características próprias.  Ex-marido de Sofia Coppola (que também é uma diretora que se interessa muito pela trilha sonora), Jonze disputa o Oscar de Melhor Roteiro Original por "Her", filme que também concorre a Melhor Filme, Melhor Desenho de Produção, Melhor Canção Original (para Karen O, vocalista no nova-iorquino Yeah Yeah Yeahs) e Melhor Música Original.

Los Angeles, Califórnia. Futuro. Theodore é um homem solitário que trabalha como escritor de cartas numa firma e está em pleno processo de divórcio de uma bela mulher por quem ainda sente grande afeto. Com uma vida completamente automatizada e cercada por modernos e complexos sistemas de computação, ele decide comprar um novo sistema operativo que satisfaça as suas novas necessidades. A química e o vínculo com "Samantha" – seu novo sistema operativo- é tão grande e forte que ele termina se apaixonando por ela.

As implicações, complicações e consequências desse amor "virtualmente real" formam o principal conflito de um filme que de nenhuma maneira critica ou aponta a nossa dependência, necessidade e obsessão pela tecnologia. No entanto, examina nosso comportamento e cria uma divertida teoria de como seria o futuro e como podem mudar ou transformar as relações interpessoais a partir desses elementos que nos aproximam e nos distanciam ao mesmo tempo. 

Visualmente o filme está cheio de detalhes, sendo inovador, possuindo frescor e elementos bizarros. A teoria de uma Los Angeles futurista, organizada, próspera, limpa e automatizada, com todas as suas implicações estéticas, é um ponto de destaque. Possui incríveis designs de interiores, mobiliário... Enfim, excelente direção de arte. Vamos ver como reage esta categoria no Oscar. Será uma disputa apertada, mas "Her" tem grandes chances. O cenário moderno-futurista ainda se contrapõe ao figurino e penteado quase vintage. Um conjunto visual que forma uma parte deliciosa do filme.

Muito bom também o exercício histriônico de Joaquin Phoenix, com um monólogo na grande maioria das cenas. Foi indicado ao Globo de Ouro, mas deixado de lado na Premiação do Sindicato dos Atores e omitido na entrega do Oscar. Entretanto, é importante ressaltar seu bom desempenho num trabalho convincente, tendo que reagir a uma voz sem ter com quem contracenar e se apoiar. Estava sozinho e fez uma grande atuação.  De todas as maneiras, é preciso dizer que a voz de Scarlett Johansson é quase hipnotizante. Possui uma graça natural, elegância e uma carga de sensualidade. É Scarlett… O que mais preciso dizer?

O filme apresenta uma continuidade dramática que se mantém em quase toda a trama, exceto em duas situações. Apesar de a história ser previsível e as conclusões irem se tornando evidentes ao longo de uma hora e vinte de duração, o filme consegue prender o espectador, transportando-o por essa história de amor verdadeiro e irreal (se acaso é possível colocar essas duas qualidades juntas num mesmo tópico). Temos também sequências de diálogos divertidas com anedotas e situações ligeiramente picantes, mas que provocam o riso. Um gosto agridoce que te faz sorrir e sonhar. 

Apesar de ser levada a um plano extremista e fatalista, a história de amor provoca uma empatia no público. Afinal, quem nunca se "apaixonou" ou idealizou um amor pelo ICQ, Whatsapp, MSN ou qualquer outro sistema operativo ou ferramenta de chat? Não é uma ideia tão absurda. 

"Her" é uma bela história de amor, um espetáculo visual quase contemplativo. Possui uma carga estética tão específica que quase nos magnetiza. Com estilo bem definido, sua indicação é justa, mesmo tendo poucas chances de levar o prêmio para casa. 

Jonze é seguido de perto por Warren e Russell de "American Hustle" com sua história inventiva. Compete também com o extraordinário "Nebraska", Woody Allen e o amor enlouquecido levado por uma reação ilusória, e finalmente com Craig Borten e Melissa Wallack por "Dallas Buyers Club".
por Rafa Sarmiento
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