"The Butler, o hino triunfalista de Lee Daniels

A produção poderá competir na categoria de Melhor Filme na próxima cerimônia da Academia

Recentemente, estreou nas salas de cinema brasileiras "O Mordomo da Casa Branca" (The Butler), o quarto longa-metragem do cineasta afro-americano Lee Daniels, que conhecemos principalmente por "Preciosa" (Precious) - com o qual ele ficou conhecido mundialmente. A produção teve a ferocidade da América negra marginal. Um retrato fortíssimo e comovente, um trabalho grandioso que obteve seis indicações ao Oscar e rendeu uma estatueta a Mo'Nique (atriz coadjuvante) e a Geoffrey Fletcher (roteiro adaptado).

É importante citar o caso específico de "Preciosa", porque o filme tem este halo de "black cinema" como as produções de John Singleton. Sem tanta denúncia, mas indo a fundo na problemática que envolve a comunidade negra americana e mostrando um pouco como ela foi vítima de inúmeras injustiças. O tema de "Preciosa" vinha também da automarginalização, narrada do aspecto do ressentimento. Daniels, abertamente gay, certa vez comentou que seu pai, um oficial de polícia da Filadélfia, tentou "lhe tirar" a homossexualidade à base de golpes e cintadas. Não é de se estranhar então a frieza e a crueza no trato e as imagens mostradas, que nos comoveram e nos arrancaram lágrimas. 

No ano passado, ele fez "Obsessão" (The Paperboy), com o qual uma transformada e vulgar Nicole Kidman foi indicada ao SAG e ao Globo de Ouro. Havia também muito do ódio e do rancor racial, e ironicamente uma difícil relação paternal. O cinema, como meio de expressão artística para seus criadores, foi o veículo usado por Lee Daniels para curar suas dores nesse sentido. 

Baseado em uma investigação feita pelo jornalista Wil Haygood e adaptado para o cinema por Danny Strong, "O Mordomo da Casa Branca" é a história de Eugene Allen (no filme chamado de Cecil Gaines), um homem que serviu a oito presidentes e foi testemunha da transformação social a que a comunidade negra foi submetida através das décadas.

Filho de um jornaleiro dos campos algodoeiros de Macon, Georgia, ele foi uma espécie de "criado" em uma mansão, para depois emigrar ao norte, onde passou a servir o homem mais poderoso do mundo. E o fez com oito deles. A luta pelos direitos civis, o voto, os salários, a equidade na educação e a abolição da segregação foram coisas que ele viveu com uma dupla carga moral de agradecimento e frustração. 

Seu filho mais velho estava envolvido no movimento de direitos civis encabeçado por Martin Luther King Jr. e depois no grupo radical Panteras Negras, liderado por Malcolm X. Esses fatos tornaram seu relacionamento com o filho um tanto ríspido e delicado. Não, não estou revelando a trama nem contando nada que não esteja no trailer promocional do filme.

É uma estranha coincidência que este ano seja lançado ao lado de "12 Years a Slave", do qual falaremos em breve. Ambos trazem o tema da segregação, discriminação e humilhação a que a comunidade negra foi submetida na história de quem se presume ser o rei da democracia. "12 Years a Slave", no entanto, possui um tom completamente diferente, sobre o qual falaremos.

"O Mordomo da Casa Branca" vem com um som triunfalista e inspirador. Há altos e baixos, nos quais se passa do orgulho à indignação. A tristeza sucumbe à felicidade e essa se apaga com um balde gelado de asco. Há um discurso de sobrevivência, orgulho e resistência vigente e algo de vitimização e sentimentalismo. Não estou dizendo de forma alguma que não seja válido ou necessário. Estou simplesmente falando do tom.

Acredito que, dependendo de quantas produções a Academia indicará este ano, esta será incluída na lista máxima ou deixada de lado. Poderá entrar como a nona ou a décima das dez. Eu não duvidaria (arriscando, já que ainda é cedo) que Forest Whitaker possa concorrer na categoria de melhor ator. O homem corpulento de olho caído se encaixa perfeitamente ao papel. É uma figura marcante e o interpreta de forma genial. 

Temos uma produção complexa que atravessa diversos períodos da história americana. Além do mais, o elenco é grande e experiente. De muito renome. Oprah Winfrey (não havia representante melhor de sua comunidade do que ela), Cuba Gooding Jr., John Cusak, Terrence Howard, Robin Williams, Jane Fonda, Alan Rickman e um longo etc. É um filme aparentemente complicado, mas bem contado e contextualizado. Vale destacar, como mera curiosidade, que, assim como em "Preciosa", tanto Mariah Carey quanto Lenny Kravitz aparecem - o último em um papel muito mais relevante.

A produção é boa e joga um pouco com as emoções. O objetivo é muito específico. É um bom retrato e, sem dúvida alguma, uma história digna de ser contada. O título original, "Lee Daniel's The Butler", ainda não me convence. O ato de pôr seu nome me parece um tanto ególatra. Não é uma história que tenha diversas direções e versões. Ele tampouco é um cineasta com uma vasta filmografia, para assinar a produção. Não sei. Talvez eu esteja muito crítico ou envelhecendo prematuramente.
por Rafa Sarmiento